O ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou em uma proposta de delação premiada que os dirigentes do União Brasil ACM Neto e Antônio Rueda atuaram para viabilizar investimentos de institutos de previdência estaduais no banco em troca de uma comissão de 10% sobre os valores aplicados. As alegações vieram a público após a divulgação, pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, de um relatório de inteligência da Polícia Federal que mencionava a investigação envolvendo Rueda.

Segundo Vorcaro, a comissão de 10% teria gerado uma obrigação de cerca de R$ 200 milhões, embora ele não tenha informado quanto teria sido efetivamente pago. O ex-banqueiro afirmou que o modelo previa o pagamento de 10% do valor captado ou de 1% ao ano enquanto os recursos permanecessem investidos no Banco Master.

Conta gerencial e supostos repasses

Na proposta, Vorcaro afirma que ACM Neto e Rueda mantinham uma espécie de “conta corrente gerencial” junto ao banco devido à frequência dos pagamentos relacionados à intermediação de negócios, como captação de investidores institucionais, operações envolvendo o Credcesta e articulações com o Banco de Brasília (BRB).

O documento descreve diferentes formas de repasse. No caso de ACM Neto, os pagamentos teriam ocorrido por meio de dinheiro em espécie e contratos de consultoria que, segundo Vorcaro, seriam fictícios, firmados com a A&M Consultoria e a gestora B6 Capital. Para Rueda, os supostos pagamentos incluiriam dinheiro em espécie e contratos com o escritório Rueda & Rueda Advogados, que somariam cerca de R$ 3 milhões por mês.

Como suporte ao relato, Vorcaro afirmou ter apresentado mensagens internas do banco, contratos e registros de reuniões realizadas com os dois dirigentes na sede do Master para acompanhar o andamento das supostas contrapartidas.

BRB também é citado

Outro trecho da proposta envolve uma reunião realizada em Brasília, em junho de 2024, na casa de Rueda, com a participação do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Segundo Vorcaro, ele foi solicitado a ajudar a cobrir um aumento de capital de aproximadamente R$ 1 bilhão do banco público.

O ex-banqueiro afirmou que seu grupo investiu cerca de R$ 750 milhões no BRB por meio de fundos administrados por gestoras parceiras e que, posteriormente, o BRB adquiriu cerca de R$ 6 bilhões em ativos do Banco Master. Ainda segundo sua versão, Rueda e Paulo Henrique Costa teriam exigido uma comissão de 10% sobre as compras de ativos realizadas pelo BRB, dividida entre ambos e ACM Neto.

Contratos e investigações em andamento

A reportagem destaca que a quebra de sigilo do Banco Master já havia revelado contratos de consultoria com empresas ligadas a ACM Neto e contratos de advocacia com o escritório de Rueda. Segundo Vorcaro, esses documentos serviriam para justificar contabilmente parte dos pagamentos.

A Polícia Federal também investiga investimentos realizados por fundos como o Rioprevidência, Amprev (Amapá), Amazonprev e Cedae, cujos dirigentes, em alguns casos, teriam ligações políticas com integrantes do União Brasil, conforme apontam as investigações.

Pontos que permanecem sem comprovação

Apesar das acusações, a própria proposta de delação apresenta lacunas. O documento não informa quanto foi efetivamente pago aos políticos nem descreve atos concretos praticados por ACM Neto ou Rueda junto aos fundos de previdência, limitando-se a afirmar que ambos “intermediaram” os investimentos.

Há ainda divergências entre os valores mencionados por Vorcaro e os dados conhecidos sobre os aportes. Enquanto ele fala em cerca de R$ 2 bilhões captados, os investimentos públicos já divulgados somam aproximadamente R$ 3,62 bilhões.

Além disso, relatórios do Coaf e da quebra de sigilos do Banco Master registram transferências de R$ 6,4 milhões para escritórios ligados a Rueda entre 2022 e 2025 e de R$ 5,4 milhões para a empresa de consultoria de ACM Neto entre 2023 e 2025 — valores inferiores aos montantes descritos na proposta.

Delação foi rejeitada

As propostas de colaboração premiada apresentadas por Vorcaro foram rejeitadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, sob o argumento de que não traziam informações inéditas suficientes e não ofereciam garantias para a devolução de recursos supostamente obtidos por meio de fraudes. O ex-banqueiro tenta retomar as negociações, mas, até o momento, não obteve sucesso.

Posicionamentos

Segundo a reportagem do UOL, ACM Neto afirmou que os pagamentos recebidos decorreram de contratos legítimos de consultoria e negou qualquer irregularidade. Antônio Rueda também negou as acusações e sustentou que não há provas de pagamentos ilícitos. A defesa de Augusto Lima, citado por Vorcaro, classificou os relatos como “fictícios”.