Uma polêmica inusitada invadiu o debate público argentino e chegou até o Congresso Nacional: na cidade de Trelew, província de Chubut, carne de burro começou a ser vendida por cerca de 7.500 pesos o quilo (aproximadamente R$ 27, na cotação atual). A venda do corte alternativo ocorre no momento em que a inflação anualizada de carnes e derivados na Argentina atingiu 55,1% em março — o maior nível desde abril de 2025.

A iniciativa em Trelew é do produtor rural Julio Cittadini, da área de Punta Tombo, que batizou o projeto de “Burros Patagones”. Segundo ele, o produto é nutritivo, saboroso e de boa qualidade, e tende a ganhar espaço à medida que a produção aumente. Para medir a receptividade do público, Cittadini organizou até uma degustação aberta com pratos como empanadas, linguiças e assados feitos com carne de burro, que foi acompanhada pelo o canal de televisão argentino La Nación+.

A proposta surge em meio à crise da ovinocultura na Patagônia, afetada por fatores como predadores, baixa rentabilidade e condições climáticas adversas. Nesse cenário, o burro aparece como uma alternativa viável por sua resistência e adaptação ao ambiente árido, além de exigir menos recursos do que o gado bovino.

O valor da carne de burro também é muito inferior ao da carne bovina, que ultrapassou 25 mil pesos argentinos o quilo (cerca de R$ 90) em alguns estabelecimentos espalhados pelo país. A inflação anualizada de carnes e derivados na Argentina varia de 33,1% na Patagônia a 61,5% no nordeste do país. O Índice de Preços ao Consumidor teve alta de 32,6% no acumulado de 12 meses, entre março de 2025 e de 2026.

Carne de lhama

A mais de dois mil quilômetros de Trelew, nos Vales Calchaquíes, o produtor Rogelio Allignani acompanha o debate e pede que a carne de lhama não seja deixada de fora.

Produzida em pastagens naturais, sem uso intensivo de insumos, esse outro corte vem despertando interesse crescente entre consumidores que buscam opções mais saudáveis e sustentáveis. Allignani também aposta na expansão da atividade como forma de fortalecer a economia local e estimular a ocupação produtiva de áreas áridas.

“É uma das mais magras que existem: entre 1 e 2% de gordura intramuscular, alta porcentagem de proteínas de excelente qualidade biológica, baixo colesterol e muito boa digestibilidade. Ideal para dietas saudáveis”, afirmou ele em entrevista ao jornal argentino Clarín. “É um produto limpo, sustentável e cada vez mais valorizado na gastronomia.”

Além da carne, o produtor investe na exploração de derivados, como o leite de burro, conhecido por propriedades nutricionais e cosméticas. Com composição semelhante à do leite humano, o produto é apontado como alternativa para pessoas com intolerância e já possui mercado consolidado na Europa.